Recentemente, encontrei um vídeo no YouTube com Dan Riccio, ex-vice-presidente da Apple. É uma palestra gravada logo após ele decidir se aposentar. O conteúdo tem uma ligação profunda com um livro que estou lendo, chamado Apple in China. Muitos dos temas abordados no livro aparecem na fala de Dan. Sinto que ambos estão muito conectados. Caso tenha uma hora e meia disponível, vale o investimento. Abaixo, listei os pontos que achei mais interessantes.
O vídeo completo
Se olharmos para a história da Apple, a primeira versão de um produto revolucionário raramente é a que muda o mundo. As primeiras gerações costumam ser cheias de concessões. Elas funcionam como provas de conceito caras, enquanto a empresa descobre o que o produto realmente deve ser. Dan Riccio explicou recentemente essa jornada de várias décadas. Vamos ver como a Apple itera para alcançar o sucesso.
Quando a Apple entra em uma nova categoria, raramente entrega o pacote completo logo no primeiro dia. Em vez disso, o foco é estabelecer uma tecnologia fundamental. Eles fazem isso mesmo que signifique sacrificar outros recursos.
Vejamos o iPhone original. Hoje, ele é o padrão para smartphones. Mas a primeira geração era limitada. Ele foi lançado sem 3G, não tinha uma câmera de alta qualidade e nem sequer possuía uma App Store. O que ele tinha era uma interface multitoque revolucionária. Isso permitia que a tela se adaptasse a qualquer aplicativo. Essa única aposta fundamental foi suficiente para transformar o setor. O dispositivo em si levou alguns anos para amadurecer.

O MacBook Air seguiu um caminho semelhante. Steve Jobs o tirou de um envelope pardo para mostrar sua espessura incrivelmente fina. Mas como um computador para o dia a dia, ele deixava a desejar. O aparelho dependia de um disco rígido lento de 1,8 polegada, emprestado do iPod. Tinha apenas uma porta USB e sofria com estrangulamento térmico. Foi preciso chegar à terceira geração para o Air encontrar o equilíbrio perfeito entre desempenho e portabilidade. Ele acabou se tornando o Mac mais vendido da Apple.

Às vezes, a Apple lança um produto com um uso específico em mente. Depois, percebe que o mercado quer algo totalmente diferente.
Quando o Apple Watch foi lançado, a Apple o posicionou como um acessório de moda de luxo. Eles chegaram a vender um modelo Edition de ouro maciço por 15.000 dólares. Com o tempo, a Apple observou como as pessoas realmente usavam o dispositivo. Eles fizeram uma mudança drástica de rumo em direção à saúde e ao condicionamento físico. Hoje, recursos como monitoramento cardíaco e ECG são a base da experiência do Apple Watch. Ele se transformou em um acessório que salva vidas, em vez de ser apenas um relógio de luxo.
A Apple TV começou sua vida explicitamente rotulada como um hobby. A primeira versão era basicamente um disco rígido que sincronizava com o seu Mac. A interface era rudimentar. Foram necessários anos de evolução para que ela se tornasse a central de streaming baseada em aplicativos que é hoje.
A Apple é sinônimo de design industrial. No entanto, eles aprenderam da maneira mais difícil que a forma não pode ignorar totalmente as realidades do mercado.
O PowerMac G4 Cube é talvez o exemplo mais famoso disso. Era uma obra-prima da engenharia. Um cubo de 8 polegadas suspenso em acrílico transparente. Possuía resfriamento passivo, um botão de ligar sensível ao toque e uma alça que dava acesso instantâneo aos componentes internos.
Contudo, o preço era de 1.799 dólares sem monitor. Isso estava muito além do que o mercado aceitava pagar pelas suas especificações. Apesar da elegância, o G4 Cube foi cancelado apenas nove meses após o lançamento. Foi um produto belíssimo, mas um fracasso comercial.
A Apple costuma evoluir de forma lenta e metódica. Mas existem momentos raros em que eles dão um salto enorme e imediato. Eles fazem isso mesmo que prejudique os resultados no curto prazo.
O iPod mini era o produto de maior sucesso que a Apple já havia criado até então. Em vez de lançar uma versão um pouco melhor, a Apple o descontinuou completamente para lançar o iPod nano.

A troca de discos rígidos em miniatura por memória flash permitiu que o nano fosse incrivelmente fino. Foi um risco enorme tirar de linha o seu dispositivo mais vendido. Mas a aposta se pagou imediatamente. A lição aqui foi clara: se você não causar uma ruptura em si mesmo, alguém fará isso por você.
Olhando para o histórico da Apple, alguns padrões ficam claros para quem desenvolve produtos:
A mais recente grande aposta da Apple é o Apple Vision Pro. Ele está seguindo exatamente o mesmo roteiro do iPhone original ou do MacBook Air. É uma maravilha da engenharia, mas é pesado e caro. Ele ainda busca por seu "killer app".

Se a história servir de guia, esta primeira geração não é a linha de chegada. É apenas a base para a próxima década.